A mãe solo e os relacionamentos amorosos - para além do romantismo

Escrever sobre isso pode parecer fácil, mas não é nem um pouco. Falar sobre relacionamentos pós-maternidade é falar de uma infinidade de coisas difíceis, dolorosas e que ninguém comenta para manter a magia da maternidade intacta.
Esses dias eu estava conversando e um amigo me perguntou: "Karol, foi difícil namorar alguém depois do pai do Gael?". E eu fiquei parando, pensando e realmente eu nunca tinha pensado o quanto foi realmente difícil. 

Me separei do pai do Gael ainda grávida, o que fez com que eu experimentasse a carga de ser mãe solo - a famigerada mãe solteira - bem antes do nascimento do meu filho. Aquelas frases que todo mundo te diz de "ninguém vai te querer com um filho", "sua vida acabou", "agora que engravidou já era" eram bem impactantes pra mim e contribuíram, e MUITO, pra minha depressão pós-parto. Eu estava grávida e também queria alguém pra mim, mas quem iria querer uma mulher grávida de outro homem? Quase uma ofensa para a masculinidade de qualquer um - o que é muito cômico se comparado à quantidade de mulheres com que um homem que espera um filho de outra mulher consegue se relacionar. 

Quando meu filho nasceu,  o impacto do solteira pesou muito mais. Para além de ser sozinha na criação do Gael - meus pais trabalhavam bastante nessa época e ele ainda era muito dependente de mim -, eu era sozinha em tudo. Meus amigos dificilmente me procuravam para algo que não fosse ver o bebê (isso continua acontecendo 2 anos e meio depois), eu não me socializava muito porque estava sempre cansada demais para sair de casa e uma mulher com um bebê recém-nascido não era nem um pouco atraente. Comecei a de fato sair quando o Gael tinha 3 meses - uma tentativa da minha mãe de me ajudar a sair da depressão. Era tão bom estar viva de novo! Dançar, olhar as pessoas, elas sorrirem pra mim, eu sorrir pra elas também! As ficadas também eram ótimas, mas eu não falava sobre meu filho para quem eu não conhecia. De alguma forma, eu me sentia constrangida por ser mãe.
 
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Pegação era algo super leve e tranquilo de rolar. Entretanto, em pouco tempo eu vi que travar uma relação amorosa com alguém era consideravelmente mais difícil. Não era mais marcar um encontro no cinema com lanche depois. Antes desse cinema, eu tinha que arranjar alguém que ficasse com o meu filho durante esse tempo, torcer muito para ele não sentir minha falta e comer o lanche voando, para chegar a tempo na hora da mamada. Isso se eu arranjasse alguém - as pessoas poderiam ter compromisso, ou simplesmente não querer ficar com o bebê. Eu me sentia horrível, pois achava impensável arrastar meu filho para um primeiro encontro (até hoje acho, mas por outros motivos totalmente diferentes). Quer coisa mais corta clima do que um bebê chorando? 

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Me relacionei com alguns colegas de faculdade. Sabiam que eu tinha um filho. Mas não dava para fazer nada fora do período de estudo, porque pra sair sempre era uma missão.  Missão que podia perfeitamente dar errado. Eu também não queria ficar longe do meu filho por muito tempo, e ao mesmo tempo, não queria que o meu filho entrasse na relação de jeito nenhum. Primeiro, porque eu tinha muito medo de me relacionar com alguém e sofrer os traumas que  eu vivi antes. Segundo, porque me sentia envergonhada de ter um terceiro elemento numa relação que deveria ser à dois. Terceiro, e talvez o que mais me marcava: eu tinha medo de ser trocada por outra mulher desimpedida.
 
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Conheci um homem no Tinder com quem me relacionei por quatro meses. Nos encontrávamos todos os finais de semana e, durante dois desses quatro meses, eu tentei esconder o Gael de todas as maneiras possíveis.  Um belo sábado, ninguém podia ficar com ele. Eu entrei em desespero e quase desmarquei o encontro. Minha mãe olhou para mim e disse "leva o seu filho, uma hora ele vai ter que entender que você é mãe". Propus que o Gael passeasse conosco com muito receio e com medo da resposta. Quando ele disse "tudo bem, quero conhecê-lo mesmo" eu respirei aliviada. O encontro foi ótimo e ele fez questão de interagir com meu filho o passeio inteiro - e foi o que fizemos nos outros dois meses em que continuamos juntos. E foi aí que percebi que não adiantava o que eu fizesse e o quanto eu evitasse, eu era mãe e tinha que aprender a me relacionar dessa forma. 

Querendo ou não, isso é um fato: a criança atrapalha, em muitas coisas. Criança interrompe transa, beijo, faz você parar a série na melhor parte, quer comer o seu jantar romântico, tem medo  de trovões e quer dormir na sua cama quando você vestiu sua melhor camisola justo para aquela noite. Criança quer atenção para ela, e não que você dê atenção para qualquer outra pessoa. Mas quem disse que ela também não pode ter atenção?



Comecei a encarar isso de uma forma mais natural. E pude perceber que meu filho amadureceu e melhorou a qualidade do resto das minhas relações. Quem não estava disposto a viver a minha realidade, com as minhas dificuldades, não servia para estar comigo. E entendi que sim, essas pessoas existiam! E que eu não precisava ter medo de ficar sozinha, porque eu sozinha estava bem e pintava sempre alguém legal que queria estar bem junto comigo e com o meu bebê. Não foi e não é fácil, não só pela criança, mas pela sobrecarga que a mãe tem em detrimento do pai, quase sempre. Mas é uma realidade que eu precisei me adaptar. 

Há várias dificuldades em se relacionar sendo mãe solo. Começando com o fato de que as pessoas sempre acham que você quer um pai/mãe pro seu filho que te ajude a criar a criança - e não, isso não é verdade. As relações interpessoais são cheias de intensidade e particularidades infinitas, para serem tristemente resumidas ao cuidado com uma criança. Os famosos mitos da mãe solteira é piranha/mãe solteira dá pra vários/mãe solteira não é mulher pra casar são contos de ninar do patriarcado machista que sempre coloca as mulheres como dependentes do homem, do senhor do lar e da família, não podendo simplesmente criar seu filho sozinha - e muitas vezes isso não é uma opção. O ódio social à criança também é algo que mina profundamente as relações pessoais, o que não deixa de ter um fundamento, já que criança dá trabalho, mas que poderia ser facilmente resolvido se as pessoas não achassem que o filho é um estorvo e não um ser humano que precisa de atenção e ser ouvido de uma maneira diferente. 
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Driblar todas essas dificuldades e preconceitos é algo que constroi. Não só pra mãe. Pra sociedade como um todo que coloca a  figura da mãe, cuidadora das crianças, da família e do lar totalmente dissociada da mulher independente, que namora, bebe, sai, ri, tem uma vida sexual. Pro patriarcado, é impossível ser os dois. Ou é santa, ou é puta. Ou mãe de família, ou mãe solteira - como se filho fosse estado civil. Entretanto, vale a pena tentar. Pra todo mundo. 

Continua não sendo fácil. Muitas vezes dou graças à Deus pelo Gael dormir mais duas horas, ou ficar com o pai mais um dia para eu poder fazer coisas diferentes. Mas deixei de interpretar meu filho como um ser fora da relação. Não sei como se faz essa transição. Mas sei que depois que passei a associar o Gael à minha felicidade sentimental também, eu passei a ser bem mais feliz.
 



Comentários

  1. Linda ! Minha história é bem parecida com a sua ! Tenho 2 meninos lindos e sou feminista também ! Um dia posto a minha história pra encorajar cada vez mais mães a se expressarem e saberem que não estão sozinhas !

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    1. Obrigada!
      Posta sim!!! E me marca pra eu poder ler também! :*

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  2. Linda ! Minha história é bem parecida com a sua ! Tenho 2 meninos lindos e sou feminista também ! Um dia posto a minha história pra encorajar cada vez mais mães a se expressarem e saberem que não estão sozinhas !

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  3. Que post ótimo! Mas é assim, difícil, mas nós mudamos a visão de mundo e nossos filhos vem sempre em primeiro lugar, e tem sempre alguém que vai gostar de nós juntamente com nossos filhos e não vai colocá-los para trás, e sim do nosso lado!

    Beijos.

    Jovens Mães

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    1. Obrigada, Bruna!
      Sim, é muito complicado mudar nossa visão de mundo... Nem sempre a gente consegue, muitas vezes. Mas o importante é continuar tentando criar nossa autonomia, se não a gente pira! Beijos :*

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Sou pai separado a 4 anos e agora minha ex foi morar com outro rapaz e deixou nossa filha com a avó e agora só vê a nossa filha de 15 em 15 dias. Porém ela se colocou acima da nossa filha e isso vai custar muito a ela porque nossa filha já disse "Minha mamãe me abandonou"isso dói porque já não me tem todos os dias e agora não tem a mãe também.

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    1. Triste para sua filha sentir isso, uma vez que já não tinha o pai. Mas porque você não fica com a sua filha. Não a leva para morar contigo que afinal é o pai?

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  6. Separei do meu ex marido quando a bebê estava com 6 meses e minha mãe ainda trabalha bastante e é bem ativa com as próprias coisas. Também não tenho com quem deixar a minha , é bem complicado. As vezes entro em app de relacionamento mas logo saio pq vejo pessoas interessantes mas vejo que vai ser bem difícil ter um encontro. Ela está com 2 anos agora. Moramos só nós duas. A escola é só enquanto trabalho pois mais que isso seria muito caro . Também fiquei 4 meses com alguém que foi apaixonado por ela, mas por outras incompatibilidades eu quis romper. Mas é realmente muito difícil ter vida amorosa pós bebê. Apesar do ótimo texto ainda não vi luz no fim do túnel rsrs
    Ainda não acho que convém levar e expor ela nos primeiros encontros.

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  7. Eu sei que e difícil tal situação,mas o amor a criança e ao filho tem que estar acima de tudo por que a criança ser inocente que veio ao mundo por um ato de amor,as vezes sim as vezes nao mas nao teve voz ativa para expressar sua vontade,eu nao quero nascer, então sempre que puder estar dedicando o carinho,e o amor a este pequeno ser que pode ser enquadrado como obra,divina , que são os pequenos anjos do senhor nosso DEUS,nunca e demais,e os tributos viram mais tarde com certeza,,eu com minha vida conjugal já ceifada ,separado de corpos com filhos criados e cinco netos, ainda com vontade de achar uma companheira que possa dar muito mais a ela do que receber,e possamos ainda vivermos uma comunhac de paz e de vivencia mesmo com uma criança,será um ponto fortíssimo de uniao para uma relação que possa so trazer maiores alegrias não só a mãe como a quem está entrando com sentido de dar um pouco mais de segurança e sustentabilidade, aos dois e buscando também uma fé religiosa que possa incrementar DEUS,no bom viver entre nós.obrigado SENHOR por este espaço meu DEUS

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