O "feminismo" que não deu certo: o que se tornou o movimento childfree

Fiquei um tempo sem postar, mas dessa vez, foi por algo positivo. Pensei muito na próxima postagem do blog e acho que já está na hora de falar sobre. 
Já tem um tempo que queria falar disso, e estava matutando em como abordaria o assunto, quando li um texto no Para Beatriz que me contemplava em sua totalidade e me fez ver que sim, a gente precisa tocar nesse assunto. Talvez você nunca tenha ouvido falar nesse termo, mas muitas de nós, mães feministas, com certeza estamos bem inteiradas.

Meu blog sempre serviu, primordial e majoritariamente, para a desconstrução da maternidade romântica e visibilidade da maternidade compulsória, e acabou se tornando eixo e fio condutor da maioria dos meus textos. E escrevo esse texto com a total consciência de que esse continua sendo o meu eixo não só de produção textual, mas de militância e de vida. Ser mãe não é nada romântico. E NÃO SER MÃE é um direito que qualquer mulher tem, independente de qualquer coisa.

Mas esse texto não é sobre ser mãe. Esse texto é sobre como mães estão sendo constantemente excluídas dos espaços feministas e não feministas, através desse movimento.


O movimento childfree surgiu como uma corrente de pensamento ligada ao feminismo, que criticava a  maternidade compulsória (a imposição social de toda mulher à maternidade) e reivindicava o direito de mulheres não quererem ter filhos, e terem direito à essa escolha. Até então, era um movimento que acrescia MUITO no feminismo e no debate da maternidade no geral, porque repensava o papel da mulher na sociedade e sua significância pessoal, inclusive para ela mesmo. O feminismo abraçou o childfree, porque ele representava uma ideia de liberdade feminina.

A ideia é, sem dúvida, libertadora. Então, por quê fazer textos criticando esse movimento?


Meme da página "Somos Childfree"



De libertador e essencialmente feminista, o movimento childfree virou uma máquina de ódio à crianças e mães. Não raro, a própria página é atacada por mulheres que se dizem childfree, nos chamando de nomes como "parideira", "vadia", "cuspidora de catarrento", "vagabunda", "burra", etc. Nossos filhos são chamados de "catarrentos", "mini-merdas", "projeto de bandido".
E assim, elas conseguiram calcificar alguns quadradinhos da perpetuação do ódio às crianças.

Segundo as maiores páginas do movimento, não querer ter filhos é sinônimo de passe livre para silenciamento, opressão e  discurso de ódio às crianças. Somos ridicularizadas desde a nossa gravidez, até o parto, puerpério e infância dos nosso filhos, apagando demandas que são extremamente necessárias para nós, como as creches (inclusive as universitárias), a paternidade presente, a vida sexual pós-maternidade, o abandono da mulher mãe, a alienação parental e (olha só, que coisa!) a perpetuação do papel da mãe como rainha do lar, da casa e dos filhos. Só.


Comentário de uma mulher que se declara childfree para uma mulher mãe.


O que está em discussão é: NUNCA SERÁ ERRADO VOCÊ NÃO QUERER TER FILHOS. Inclusive, o ideal do feminismo é que as mulheres tenham o direito de pensarem e fazerem o que quiserem, da forma que melhor lhes aprouver, se e quando se sentirem bem para.
O que não pode ser aceitável é você se valer do seu desejo de não querer ter filhos para oprimir outras mulheres mães. Porque sim, mães sofrem opressão. Mais do que você.



Além de ser uma absurda falta de empatia, o movimento childfree desconsidera várias questões que o movimento feminista precisa discutir - porque são pautas necessárias a qualquer mulher. A falha dos métodos contraceptivos e os malefícios dos métodos contraceptivos hormonais para as mulheres é uma dessas questões. Ao falar sobre "pílula" e "camisinha", é excluído desse discurso milhares de mulheres (sim, elas não são poucas) que engravidaram tomando anticoncepcional regularmente, que tiveram falhas com o preservativo, que não conseguiram efeito com a pílula do dia seguinte, que não se deram bem com o DIU e até mesmo que se tornaram extremamente doentes e quase morreram (muitas inclusive, chegaram ao óbito) através de embolia pulmonar, trombose e doenças vasculares causadas pela pílula anticoncepcional. 



O movimento childfree também "esquece" de mencionar que mulheres recebem menos, em sua maioria, justamente por sua capacidade reprodutiva de engravidar, e muitas têm seu direito de trabalhar negado porque são mães de crianças pequenas. 
Ele também esquece de que a maternidade é o principal motivo para que mulheres que estão em um relacionamento abusivo ou em situação de violência doméstica não denunciem ou permaneçam nessa relação. Quase todas não querem que seus filhos sejam afetados. 

Para além disso, existe ainda a fomentação do ódio às crianças - completamente infundado - e a exclusão delas de qualquer espaço possível e imaginável. CRIANÇAS. Seres sociais em formação. 



A empatia do movimento childfree simplesmente inexiste, e não só é uma atitude nada feminista, como em suma, contrária à luta pelos direitos da mulher na sociedade. Isto porque, sim, o principal elo de opressão da sociedade contra a mulher é a maternidade.




Não existe feminismo sem lutar por igualdade salarial (e pela quebra do motivo pelo qual ela não existe).
Não existe feminismo sem lutar pelo direito da mulher ao trabalho (e consequentemente, pela inclusão de mulheres mães no mercado).
Não existe feminismo sem lutar pela descriminalização e legalização do aborto (a maioria das mulheres que abortam já são mães).
Não existe feminismo sem lutar contra a cultura do estupro (e contra o estatuto do nascituro, e a favor de milhares de mulheres que têm filhos com seus estupradores).

Não existe feminismo sem as mães. Por mais que você lute pelo seu direito de não ter filhos, se você não considera as mães no seu discurso, ele perde sua razão de ser.

Entendemos que você não queira ter filhos. Respeite e entenda nosso direito de tê-los. Eles são pessoas e exigem ser respeitadas. Entre não querer ser mãe e demonizar mães e crianças há um abismo muito grande.

E esse abismo precisa ficar bem claro. Porque ou a revolução será feminista e materna... ou não será.






Comentários

  1. o movimento cf não tem nada com o feminismo, a pauta até pode ser discutida no feminismo e mulheres podem ser cf e feministas mas o movimento em si não tem nada ligado, o movimento cf é também para homens que não querem ter filhos

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  2. Childfree não é um movimento. É estilo de vida. Não tem nada a ver com feminismo já que homens tbm optam em serem CF. Menos. Bem menos.

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