A magia (ou não) da maternidade

Eu desde que me entendo por menina, sempre quis ser mãe. Não via o meu futuro sem um filho, sem uma vida a dois marcada por uma criança. Só de pensar em ser estéril, eu chorava rios. Com o tempo, isso passou a ser um desejo latente, e mesmo não planejando, engravidei.
Todo mundo quando abre a boca pra falar da maternidade, sempre a descreve como algo mágico, perfeito, transcendental. Um amor incondicional que surge instantaneamente. Você olha e fala: “caramba, como deve ser?”. Quando eu estava grávida, pensava nisso a todo o tempo. Ate que a cesariana veio, o Gael saiu, eu fiquei surpresa, emocionada, feliz, mas não apareceu o amor incondicional de que tanto falavam. “Cadê? Não to sentindo. Sou uma péssima mãe.” Sim, fiquei surpreendida de como aquele serzinho tão pequeno saiu de dentro de mim, fiquei feliz por uma nova vida, mas... Sabe quando falta alguma coisa? Não tinha a magia que eu via nos programas de bebês da Discovery Channel.
A amamentação no inicio, pelo menos para mim, foi tenebrosa. Muita dor. O sono entrecortado, era algo difícil de superar. Minha primeira noite com o meu filho foi triste e memorável: eu não dormi um segundo, sozinha com ele, os pontos doíam e ele não saía do meu colo sem chorar. Lembro perfeitamente de ir ao banheiro no quarto da maternidade e sentar na privada, com ele no meu colo, tamanho era o desespero dele ao ficar longe. Os dias subseqüentes foram marcados por N descobertas. A irritação de acordar de madrugada, a vida mudando, você sendo anulada por perguntas do tipo “oi, tudo bem? Como vai o neném?” sem ninguém nem ligar pra sua existência. Quando seu filho nasce, você reflete sobre tudo o que vai ter que abrir mão na vida, por conta dele. Não importa se você tem 20, como eu, 30, 35, 40. Mesmo que o amor instantâneo tenha surgido pra você, sim, você para pra refletir sobre a sua vida. É um desgaste desigual, nos primeiros dias. Você não tem vida: sua vida, sua alma, seu sono, tudo pertence ao seu filho.
Hoje meu filho tem 3 meses. E só com esse tempo fui descobrir, que o meu amor de mãe se construiu. Ele não apareceu instantaneamente como nos contos de fadas, ele cresceu a cada toque, a cada colo, a cada cheiro, a cada sorrisinho reflexivo do Gael. E é um amor que só aumenta, todo dia quando o vejo pela manhã acordo mais apaixonada por ele. E o amor instantâneo não surgiu pra mim, mas isso não faz de mim uma mãe ruim. Eu descobri que sempre o amei incondicionalmente, eu só ainda não estava hormonalmente em condições de ver isso, e a nossa convivência que possibilitou essa descoberta.
SER MÃE NÃO É VIVER NUM MUNDO DE AMOR. Filho dá trabalho, chora, te irrita num dia estressante, te tira o sono, te suga, te desgasta, te faz ter vontade de sumir ás vezes. E nem por isso são menos apaixonantes, ou o amor é menor ou menos incondicional. Eu me sentia péssima ao ver aquela fantasia toda de “amo eternamente para sempre como consegui existir sem isso” e eu não estar vivendo aquilo. Me sentir uma mãe ruim, me sentir uma mãe desprovida de coração. Eu chorava nas minhas orações pedindo pra ser invadida também por aquele amor incondicional e puro que tudo suporta e tudo crê. Mas demorei pra ver que a maternidade não é uma só pra todas as mães. E não foi assim pra mim. E também vi que a vida perfeita da maternidade é uma ilusão: eu não era desumana e sem coração porque me irritava pela falta de sono. Pelo contrário. Seres humanos não são perfeitos, as relações entre eles também não são. Relação de mãe e filho não seria diferente.
Pode ser que tudo o que eu escrevi não se encaixe a você. Mas pra muitas que se sentiram como eu, saibam que não são as únicas. E não finjam uma perfeição que não existe: os hormônios, o cansaço, tudo colabora para que essa magia toda não aconteça muitas vezes.

A magia da maternidade é sofrer isso tudo e de repente, num momento, num olhar ou ás vezes num simples colo, ver que você não consegue viver sem ele. Que mesmo com a falta de sono, de dinheiro, com as dores, com os desesperos de ter um bebê, o sorriso dele ainda é o maior bom dia que você pode receber. Que mesmo com tudo isso, você se preocupa, põe o dedinho no nariz pra ver se respira, cobre, escolhe a roupinha exata pro dia frio, mede a temperatura se acha que tá quente, leva no médico, sofre com os dias de reação a vacina. ISSO É SER MÃE. Hoje me acho uma mãe satisfatória: não sou perfeita. Sou destrambelhada e distraída. Mas sou a mãe que posso ser. Faço o meu melhor e sou incansável nisso, pra cuidar bem do meu filho. Dou amor e carinho, e sei de cor os dias das próximas vacinas e do próximo pediatra dele. E mesmo com todas as dificuldades, sei que se eu não tivesse ele, eu não seria tão completa.

Comentários

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  2. Minha eterna e amada Karoline Miranda,memorável seu depoimento! Está muitoooo bom!! Você autoriza a "partilha"?
    Estou orgulhosa de você! Bom,depois de 29 anos de maternidade:
    "A verdade é que a gente não faz filhos. Só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte-final..."não recordo o autor... E aproveitaria para refletir:
    o "ser mãe",é um eterno rascunho...e aí está a belezura da vida! Muitos beijos em você e no Gael. Te amo!!! :)

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