Relato de Parto

(Nunca parei pra pensar que eu, desde 2013, quando iniciei o blog, eu nunca tinha feito um relato de parto, algo que é tão "clássico" entre as mães, mas pra mim mais do que isso, é tão importante pra relatar várias coisas que deveriam ser denunciadas. O relato de parto não deve servir apenas pra emocionar, mas também para criticar e mostrar a realidade, principalmente em algo que é tão romantizado como a maternidade.

Já adianto que esse post vai ser recheado de fotos, originais e sem efeito, pois além de eu ter uma mãe que adora fotografar tudo o que vê, elas são extremamente importantes pra dar vida ao meu relato.)

02 de abril de 2014 

Eu tinha passado o dia na faculdade e logo depois, com o pai do meu filho. Lembro que um pouco antes de voltar pra casa tinha começado a sentir algo semelhante à uma cólica muito leve, mas que não era nada demais. No caminho para a casa, ela se tornou ritmada, mas não parecia nem de longe uma contração. Para aliviar a dor - que não era forte, mas era chatinha - eu tomei um banho quente. Até hoje consigo ouvir minha mãe me dando esporro no banheiro porque eu tinha chegado às 22h da noite da rua grávida. Fui dormir. 3h da manhã, sinto algo descer pelas minhas pernas. Que sensação estranha, socorro. A bolsa tinha estourado. Acordei minha mãe e meu pai no susto, e todos começaram a se aprontar para ir direto para a maternidade. Minha mãe tratou logo de me mandar limpar e lixar os pés e limpar possíveis "cascões" do pescoço: não interessava se eu estava com a bolsa rota, o importante era não estar com os pés sujos (prioridades, rs). Parece idiota - e na hora eu achei mesmo - mas a 'prioridade' dela tinha um fundo muito real: ela não queria que enfermeira nenhuma me achasse "favelada", porque sabia que se isso acontecesse, eu seria maltratada.

Pegamos a malinha da Cegonha Carioca, descemos e pegamos um táxi. Claro que antes, a minha mãe me fez tirar essa foto sensacional que vocês estão vendo.

Madrugada do dia 03 de abril de 2014 - 4h da manhã

Cheguei na maternidade sem uma dor. Bolsa rota, ansiosa, mas muito tranquila. Minha mãe e meu pai estavam apreensivos, mas sempre senti uma confiança a mais quando a minha mãe (quase sempre bem ariana e muito prática e austera) pegava na minha mão e dizia "eu estou aqui". E ela estava. Na triagem, havia outra grávida ao meu lado. Uma adolescente negra acompanhada da mãe, igualmente negra. Ao contrário de mim, ela se contorcia de dor e gritava para que a mãe fizesse alguma coisa. Nitidamente, se via a criança se remexendo de uma maneira muito estranha dentro da barriga. A mãe, uma senhora com um lenço amarrado na cabeça para conservar a touca, rindo-se de na pressa das dores da filha ter saído de casa com um pé de cada chinelo diferente, conversava com a gente enquanto a filha dela era examinada. Muito simples, ela nos relatou um pouco da história daquela gravidez: a menina havia se envolvido com um cara do tráfico, e ele abandonou ela. A grávida era estudante; a mãe, cozinheira. A mãe nos dizia que ela ia falar com o pastor da igreja para que orasse pela filha dela, e aí tudo estaria entregue nas mãos de Deus, Aos gritos desesperados da filha, ela dizia apenas uma frase: "Calma, minha filha, Jesus tá no barco". Eu e minha mãe nunca mais esquecemos essa frase.
Quando ela finalmente saiu pra sala de pré-parto, a médica relatava à enfermeira, em tom de desdém: "Ai, essa aí com certeza estava drogada. Fedia. Vai sofrer lá em cima, tomara que esteja bem cheio.". Ela desejava que ela sofresse mais num pré-parto lotado. Na minha frente, logo após, havia uma senhora angolana com o bebê já quase coroando numa cadeira, enquanto a enfermeira lentamente media a sua pressão como se nada estivesse acontecendo. As médicas, de dentro da sala, riam do modo como ela gemia com as dores do parto
Eu fui ficando cada vez mais tensa com esse ambiente hostil, quando chegou a minha vez de ser examinada. Após algumas perguntas rápidas, a médica me deu um toque bruto e grosseiro, e anotou na folha que eu deveria subir pra internação. Eu não tinha nada de dilatação, mas a bolsa rota caracterizava risco de infecções se eu não  fosse recolhida no hospital.

03 à 9 de abril de 2014

Eu nem sei dizer o que senti nesse tempo todo que fiquei internada. Além de ser uma angústia muito grande estar esse tempo todo internada sem nenhuma contração, eu nunca sabia o que realmente aconteceria no dia seguinte. O Gael estourou a bolsa dias antes de um período pontual da gestação, onde para ele era arriscado permanecer dentro do útero com a bolsa rota, mesmo com as injeções de corticóide. E os médicos nunca decidiam o que de fato iria ser feito comigo. Eu levava toque todos os dias como procedimento de praxe, e depois fui saber que era um risco me dar o toque com a bolsa rota sem estar em um trabalho de parto avançado. Eu não tinha uma contração. Parece engraçado, mas eu de fato não tive uma contração em vários dias. Lembro de ficar fazendo várias forças pra baixo para ver se o Gael se animava,porque eu não aguentava mais. Como o médico mudava de plantão todo dia, eu não tinha uma referência. Por duas vezes, me foi receitada a indução de parto normal por ocitocina, mas eu não cheguei a pisar no andar de pré-parto da maternidade.Um dia eu ia para o parto, outro era muito arriscado, no outro dia ia ser daqui a uma hora, no outro, vai lá saber. Meus pais e amigos começaram a ficar angustiados. Amigos pessoais meus dialogaram com a direção do hospital, tamanho o descaso dos médicos com a minha situação. Além de tudo isso,  eu descobri que estava em uma gestação de risco, pois sou epiléptica. Ninguém me disse nada. Um belo dia, ao invés de me darem o meu remédio habitual para epilepsia, trocaram o meu remédio com o de uma menina do leito ao lado, que acabava de ter um aborto e estava tendo problemas com ansiedade. Tomei um comprimido de diazepam por engano e dormi por 14 horas seguidas. Meus pais começavam a ficar revoltados.

Internação pré-parto, 08/04/2016

No meio da internação, surpresa! Eu havia contraído uma infecção vaginal externa. Aliás, o que era muito comum, porque como mulheres pós-parto e pós-aborto ficavam no mesmo local que as gestantes, o contato com sangue era algo corriqueiro. Até hoje, se eu fechar os olhos, consigo sentir o cheiro tão esquisito da enfermaria. Mesmo com a infecção, a médica plantonista prescreveu um parto normal induzido. O problema é que além de ser um risco, eu não queria parto normal e disse isso à todos os médicos. Minha vontade em nenhum momento foi respeitada, UMA OBSTETRA PRESCREVEU UM PARTO NORMAL COM ALTO RISCO DE NATIMORTAL! Apesar da indicação absurda, eu não subia para a sala de pré-parto nunca. A maternidade estava lotada, ninguém podia subir. 


10 de abril de 2014

Na manhã, a plantonista mudou. Até hoje lembro o abençoado nome dela - Dra. Cláudia Rocco. Quando fui fazer meu exame matinal, ela olhou o meu prontuário e disse a seguinte frase: "isso aqui está uma bagunça". Disse que a infecção ainda estava muito aberta e que era inviável eu ter um parto normal induzido naquelas condições. Eu sozinha tinha 4 indicações de cesariana. Voltei pra enfermaria e estava com o meu pai, quando uma enfermeira entrou no quarto. Muito doce - as enfermeiras eram absurdamente fofas com a gente, exceto aqueles serumaninhos desagradáveis da triagem que relatei no início do post - ela veio explicar que o pré-parto estava lotado e que infelizmente, ninguém poderia subir naquele dia. Todo mundo ficou muito desolado. Do meu lado, havia mulheres com pressão alta, fatores de risco, muita coisa envolvida pra simplesmente largar na enfermaria assim.
Quando a enfermeira olhou pro meu pai, ela disse que havia uma nova vacina para sarampo disponível no hospital, e que nós grávidas não podíamos tomar, mas ele podia. Como meu pai gosta de ser o super vacinado corajoso quase Rambo do rolê, lá foi ele todo pimpão tomar a vacina. Quando ele voltou, olhou pra minha cara e disse "Karoline, arruma suas coisas que você vai subir".
Entendi: zero nadas, já que a enfermeira tinha acabado de chegar pra dar a informação contrária, e eu tinha acabado de almoçar. A Dra. Cláudia tinha receitado uma cesariana emergencial <3
Internação pré-parto, 7/04/2016

Fiquei numa sala fazendo a cardiotocografia e descansando durante 8h. Um misto de ansiedade, medo, irritação e sono ficavam bem do meu ladinho, e eu não conseguia escolher qual dos 4 sentir primeiro. Às 20h, entrei no centro cirúrgio - nua (nossa, que sensação esquisita). Um gelo de doer até a alma. O pai do Gael ficou do lado de fora para a preparação do procedimento.

Tomei a raquidiana e fui preparada com a aparelhagem. Até hoje acho que a raquidiana leva um pouco de maconha, porque eu tenho certeza que estava meio grogue e lerda na cirurgia. Muito tempo depois, ao alerta de uma das cirurgiãs de "gente, ninguém vai chamar o pai?", o pai do Gael entrou no centro cirúrgico. De repente, o médico disse: "aqui está o seu presente". Quando olhei o Gael, fiquei assustada de como ele era pequeno. E não senti mais nada além de surpresa e alegria. "Cadê o amor avassalador? Eu quero sentir. Não tô sentindo. CADÊ O AMOR INCONDICIONAL?". Eu nitidamente estava emocionada, mas estava tão nervosa de não conseguir sentir aquela invasão de paixão pelo nascido, que ria e chorava ao mesmo tempo.
Apesar de chorar vigorosamente, o Gael nasceu com insuficiência pulmonar. Eu lembro que colocaram ele ao lado da minha cabeça durante poucos minutos, tiraram ele, e quando estavam preparando ela para a incubadora eu perguntei "não pode ficar nem mais 2 segundos? Eu quero ver ele de novo, foi tão rápido!". Até hoje não sei se foi pela saúde do Gael ou foi mais um episódio de violência obstétrica; só sei que meu pedido foi negado e tive que ver meu filho pela última vez naquele dia saindo dentro de uma incubadora enquanto eu estava deitada.


Nascimento do Gael, 10/04/2016

11 de abril de 2014

Eu tinha que ir até a UTI Neo Natal para ver o meu filho e tentar amamentá-lo. Eu lembro que quando fui pela segunda vez no mesmo dia, eu errei de bebê. Fui indo para outra encubadora. A enfermeira me olhou abismada e disse "você não lembra qual o seu bebê?" como se fosse um absurdo. Eu me senti um lixo. Gente, ele tinha acabado de nascer, não tinha muitas expressões e eu quase não tinha tido contato com ele. Eu estava abalada emocionalmente com todo o contexto do meu pré e pós parto e ela quer que eu reconheça incubadoras?

Era muito tristinho ver Gael se alimentando por sonda. Mesmo assim, exibo as fotos dele na UTI pois ele foi um guerreirinho: em menos de dois dias, ele fez a pega da mama correta e desceu pro quarto.

 Gael incubado, 11/04/2016


12 à 17 de abril

Gael permaneceu durante todo esse tempo internado. Ele foi muito bem cuidado, mas durante a internação, ouvi e vi coisas que me marcaram para sempre. Uma menina de 16 anos teve um parto mosntruoso de 26 horas com fórceps e acabou rasgando o períneo; uma de 19 teve um objeto deixado dentro da sua barriga numa cesária - ela inclusive me procurou para servir de testemunha sobre o estado debilitado dela pós-cirurgia -. A assistência social da maternidade querendo tirar a guarda da criança de uma mãe negra de 42 anos, porque há alguns anos ela foi usuária de cocaína.

 Gael saindo do Hospital Maternidade Maria Amélia Buarque de Holanda, no Centro do Rio, 17/04/2014


Foram tantas coisas até eu sair da maternidade, tanta informação absorvida, que fica impossível de relatar aqui, num post de blog. Mas de uma coisa eu tenho certeza: o debate sobre violência obstétrica ainda tem muito o que crescer. Ele tem que chegar no Maria Amélia, no Carmela Dutra, na Leila Diniz. Ele tem que chegar na favela. As pessoas tem que entender que forçar cesária é errado, mas forçar parto normal também. E principalmente: eu sou uma em um milhão de mães que tiveram sua escolha violada. Meu filho poderia não ter nascido. E isso é um absurdo. Olhem pras mães. Perguntem sobre a vida delas. Vocês vão encontrar tanta coisa numa história de parto, talvez, que dê até tema de monografia.

Tomara que um dia a academia dê essa atenção toda à violência obstétrica da mãe pobre.


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