O dia em que a preta parou de ser a "Mulata do Sargentelli"

Esse post é um pouco diferente dos outros. É mais particular do que os outros, e fala de coisas que eu dificilmente abro pras pessoas. Esse post fala muito sobre mim.

Na verdade, ele fala completamente de mim. De tudo o que eu sou e do que venho sendo até agora.
Esse post surgiu de uma pergunta que meu noivo me fez recentemente. Estávamos saindo do mercado e ele disse "amor, você acha que as pessoas olham estranho pra gente quando estamos juntos?". Minha mãe logo se adiantou, dizendo "claro que não, minha filha, eles te olham porque você tem uma beleza exótica."
Antes de escrever a resposta que dei, quero contar uma coisa.

É uma história. Permitam-me contar essa história.

Sou filha de uma mulher adotada. Filha biológica de uma negra muito pobre, minha mãe foi adotada por uma família branca da classe média da Zona Sul do Rio de Janeiro. Não me compete aqui falar sobre a adoção dela, porque a vida é dela, não minha. Basta que vocês saibam a influência genética familiar que tenho.
Minha mãe nasceu sendo criada como branca, embora seus cabelos fortemente cacheados dissessem o contrário. Quando ela se reconheceu como "mulata", minha avó sempre dizia: "claro que você não é".
Até que, aos 14 anos, minha mãe conheceu meu pai, um pretinho morador do Morro Dona Marta, em Botafogo. E se apaixonou. Meu pai sofreu bastante com o racismo da minha avó. Ninguém aceitava aquele favelado escurecendo a família. Mas ela queria ele mesmo assim.
Daí então, o favelado virou office-boy. Minha mãe virou professora. E 8 anos depois eles casaram.
5 anos depois do casamento, eu nasci. A filha da mulata não declarada e do negro favelado.

Eu fui muito bem criada. Muito bem educada. Para além de problemas pessoais, a minha mãe sempre foi exemplar. Ela penteava o meu cabelo da melhor maneira possível - bem preso -, porque como ele era bem crespo, não era de bom tom que eu parecesse "favelada"na escola. Inclusive, na creche, somente uma funcionária se arriscava a pentear o meu cabelo volumoso. Todos diziam que ele era muito difícil. Cresci com tranças, coques e rabos de cavalo no cabelo. Soltava nos aniversários e festas.
 Eu era uma criança muito extrovertida, simpática e engraçada. Adorava dançar e rebolar o Tchan (nossa, essa era a sensação da minha infância), como qualquer outra criança. Mas a família dizia para a minha mãe que eu ia dar cedo. Que ia "dar pra piranha". As mais suaves diziam para ela "tomar cuidado comigo". Eu tinha sei lá, 7, 8 anos?

Cresci ouvindo que eu era linda. Minha avó falava que eu parecia as "mulatas do Sargentelli", lindas, exuberantes, corpulentas. E eu cresci achando que isso era um elogio, e ficava envaidecida com isso.

Aí eu cresci. Virei adolescente. E comecei a perceber que ser uma mulata do Sargentelli não era tão legal assim.

Com 10 anos, eu fui estudar num colégio messiânico. Os meus colegas de classe me chamavam de Rafa da Malhação (na época, era um personagem negro dessa novela que usava black power), por causa do meu rabo de cavalo e por eu ser negra. O professor de Geografia - que era venerado - ajudava os alunos a me zoarem e dizia que eu estava de "frescura" (muito mais tarde, fiquei sabendo que minha mãe fez um barraco na direção e por isso ele foi demitido alguns meses depois). Pouco tempo depois, eu fiquei com um menino que até hoje me traumatiza muito quando lembro, e ele me disse "olha, eu tô ficando com você mas ninguém pode saber, porque vou continuar te zoando." E eu aceitei.

Com 12 anos, estudei num colégio militar. Passei em 5º lugar no exame de seleção, num colégio em que estudava, em sua maioria, a classe média. Eu fiquei apaixonadinha por um menino branco, e ele por mim. Começamos a conversar, andar de mão dada, ficar abraçados, essas coisas que a gente fazia om 12 anos quando ficava apaixonada. Um belo dia, ele disse pra mim que não poderíamos ficar juntos. Em eufemismos, ele deu a entender que a mãe dele nunca aceitaria que ele tivesse uma namorada negra. Algum tempo depois, eu comecei a ter um namoradinho na nossa sala mesmo. Nunca fiz nenhum trabalho na casa dele. Descobri por um amigo que a mãe dele não podia saber que a gente namorava. O porquê? Pelo mesmo motivo que o primeiro.
Ainda nessa escola, eu era muito zoada por causa do tamanho da minha testa; um dos meninos que me zoava, ficou comigo. E depois, continuou me zoando por causa do tamanho da minha testa. 

Depois desses episódios, vieram tantos outros. Perdi a conta de quantos carnavais eu fui preterida, ao lado de minhas amigas brancas que sempre beijavam horrores. Perdi a conta de quanto meninos negros preferiram as meninas loirinhas quando eu queria ficar com eles.

Meu primeiro namorado sério, quando eu tinha 16 anos, falou que preferia loiras, e que eu dei sorte porque ele se apaixonou por mim. 
Um tempo depois, ele disse que preferia as meninas brancas, porque os mamilos delas eram rosas e suas vulvas também, e os das negras (e consequentemente, os meus) eram marrons e ele não gostava muito.

Mas quem disse que eu não ficava com ninguém? Sim, eu ficava com muita gente. Que passava a mão em mim, falava que eu era uma "morena gostosa", mas que nunca quiseram me assumir de verdade.

Aí conheci um homem que queria me assumir, sim. Que dizia que se orgulhava da preta que eu era. Mas que me hiperssexualizava por eu ser negra.

E sabe o que é pior? Eu achava isso tudo normal. Eu não me ressentia. Não me revoltava. Achava que era comum. 

Entrei na faculdade com a minha mãe falando "você tem que ser duas vezes melhor, porque você é negra".
E eu fui.
Terceiro lugar entre os cotistas, de ensino médio público.
E mesmo assim, não foi suficiente pra uma mulher, num BRT, falar que por eu ser preta, devia ser cheia de filhos.
Eu realmente tive um filho.De um descendente de alemão. Aos 19. E foi o bastante pra um membro da minha família, falar "não seja que nem essa daí", quando uma prima minha falou que queria fazer medicina, em referência à minha gravidez precoce.

Hoje eu sou noiva de um homem branco e loiro.
E as pessoas parecem não ter se acostumado com isso.

Chego no ponto em que posso dizer a minha resposta.

NÃO, EU NÃO TENHO UMA "BELEZA EXÓTICA". 
Eu sou negra. E é isso que incomoda as pessoas.
As pessoas ainda acham que eu não sou digna de ter um noivo branco, loiro e bonito.
Cansei de escutar as pessoas falando pra mim "nossa, você deu sorte de achar ele". "Nossa, cuida dele hein, porque outro desse você não acha."
Por que eu não acho? Só porque sou uma neguinha, com um filho no colo, eu não sou digna de ter um bom relacionamento, com um homem branco? Quem disse?

E sabe o que realmente me fazia ver que eu estou certa?
Ele respondia "não. Eu que dei sorte de achá-la".

E deu mesmo. Por que eu não sou menos que ninguém.
Minha carne pode não vender no mercado, minha cultura pode não ser valorizada nos melhores museus. Minha raça pode ser utilizada pra fazer desfile pra Casa Grande.
Mas eu ainda resisto.
Preta, macumbeira, mãe solo sim.
Mas tô aqui, ó. No sétimo período de uma faculdade pública. Professora primária. Escrevendo. Trabalhando. Lutando contra o sistema. Empoderada. Metendo turbante na cabeça e sabendo o que ele sustenta. Com uma juba de leão. Xangô na coroa. Língua afiada. Sendo mãe e universitária e trabalhando e ainda tendo tempo de sustentar um blog.

Eu ainda tô aqui. E vou ser ouvida. E não vai ser nenhum olhar que vai me silenciar.
Vou passar de mão dada com o branco SIM.
Ele vai carregar o filho da preta no colo SIM.

Porque ele não é menos que eu.
Porque a preta não vai voltar pra senzala.
Porque a preta parou de ser a "Mulata do Sargentelli". Ela agora é a preta de si mesma.



Comentários

  1. Mulher linda, empoderada forte! Mulher! Muito amor nesse texto <3 Obrigada de <3

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  2. Ai que maravilhoso ler isso! Me senti uma merda...pq eu me deixo abater por outros problemas, queria descobrir a força que tu tem, fico mto feliz msm por vc sentir o teu lugar que é o que tu realmente sabe !

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    1. Não se sinta. Todas nós temos muita força interior! É só nos descobrirmos.

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  3. Caraca, me arrepiei ao ler! Eu sou branca, não nasci num berço de ouro, mas graças a Deus meus pais nunca deixaram nada faltar, não sou filha única, nunca fui discriminada pela minha cor ou por causa da minha aparência, pelo contrário sempre me elogiaram, realmente não sei o que é isso pelo que você passou, mas ao ler esse texto senti na pele, é revoltante como em pleno século XXI ainda existe pessoas que são discriminadas pela cor, por suas diferenças, por sua religião, etc., é extremamente revoltante ver que ainda existe o preconceito, ainda existe a homofobia, enquanto existir a ignorância infelizmente irá existir isso! Parabéns pela atitude! Amei o texto, felicidades para você e sua família! Sucesso hoje e sempre!!

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    1. Obrigada meu amor, pela empatia e pelo elogio!! <3 <3

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  4. Caraca, me arrepiei ao ler! Eu sou branca, não nasci num berço de ouro, mas graças a Deus meus pais nunca deixaram nada faltar, não sou filha única, nunca fui discriminada pela minha cor ou por causa da minha aparência, pelo contrário sempre me elogiaram, realmente não sei o que é isso pelo que você passou, mas ao ler esse texto senti na pele, é revoltante como em pleno século XXI ainda existe pessoas que são discriminadas pela cor, por suas diferenças, por sua religião, etc., é extremamente revoltante ver que ainda existe o preconceito, ainda existe a homofobia, enquanto existir a ignorância infelizmente irá existir isso! Parabéns pela atitude! Amei o texto, felicidades para você e sua família! Sucesso hoje e sempre!!

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    1. 😍 feliz demais de ler isso. Obrigada pelo prestígio! ❤

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  5. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA, foi assim que fiz quando li, gritei, pq eu preciso gritar quando leio coisas grandiosas de libertação <3

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    1. Fico tãaaaaao feliz que esse texto foi libertador pra você mana!!!! Você não sabe o quanto!
      Obrigada!

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  6. Linda Karol!
    Sua vida é um reflexo de toda força que exala. VOCÊ É INCRÍVEL. beijas!!!

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  7. sou mulher e mãe solo, já ouvi coisas similares... e é tão bom sentir que não estamos sozinhas! o pai da minha filha é militante de movimento importante, nos conhecemos na luta, mas ele nunca assumiu a filha, ao contrário, me ofendeu qnd eu falei em aborto, ofendeu minha moral e estima, precisei me afastar de tanta coisa que fazia parte de mim. saí da militância, ou melhor, fui coagida a me retirar. mas hoje em textos como o seu e de tantas outras, vou me reenxergando! rs* me reencontrando, como mulher e militante.

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    1. Mana, você não tem que sair de espaço nenhum, a não ser que queira. Quem tem é ele! Esse processo de se reenxergar é muito bom, porque a gente vai se empoderando também. Espero que você siga sua vida política, sei que é difícil, mas mana, você pode! E se esse movimento não te acolheu... É porque ele não serve! Força, mana! <3

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  8. Obrigada, obrigada e obrigada! Me vi em muitos trechos da infância, nossa como era zoada, me vi na adolescência com famílias de namorados racistas! Gratidão por ler coisas assim! Também sou mãe e com um homem branco e universitária e preta e feminista e macumbeira porque sim! Bjs de luz!

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    1. Fico imensamente grata e feliz de saber que não estou sozinha e que mesmo não nos conhecendo, estamos juntas.

      Obrigada pelo prestígio, mana! ❤

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  9. Obrigada por compartilhar sua história!!! Tem canal no youtube?

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    1. Estamos construindo o canal, em breve ele sai aqui!

      Obrigada pelo prestígio ❤

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  10. Que texto lindo! Li todinho e adorei demais a sua perspectiva, ver como muitas vezes, somos nós mesmas que acietamos o que nos impoe. Mas como é bom nos libertar e nos enxergar não é mesmo?
    Parabéns! Tu és linda apenas por ser linda! Simples assim.
    Felicidades aos noivos e que venha casamento logo, ahah!
    Adorei teu blog, vou continuar acompanhando.
    Beijos.

    Blog Jovens Mães / Instagran / Facebook

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    1. Obrigada pela leitura, Bru!
      Vou acompanhar o seu com certeza! ❤❤❤

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